quinta-feira, 29 de outubro de 2015

O “Lobo Mau” da educação

Considerações sobre a avaliação de desempenho dos professores*

Era uma vez um pequeno país que tinha oficialmente dois milhões de pobres, as mais altas taxas de violência doméstica, de gravidez na adolescência, de infecção por VIH, de abuso sexual, de abandono escolar, de analfabetismo, de alcoolismo, de toxicodependência, de desemprego…
Neste pequeno país, muitas crianças viviam em instituições de acolhimento, sem família e, tantas vezes, sem o respeito à protecção da sua dignidade.
Neste pequeno país aconteciam coisas estranhas. Fechavam escolas, hospitais e fábricas mas abriam bancos, campos de golfe e hotéis de luxo. Os custos de ensino para as famílias aumentavam enquanto o orçamento para a educação diminuía. As escolas vendiam refrigerantes com açúcar e cafeína, mas não ensinavam os jovens a utilizar os preservativos nem a prevenir as doenças sexualmente transmissíveis. Os alunos tinham que permanecer cada vez mais tempo nas escolas mas estas não tinham espaços adequados nem confortáveis. Talvez por isso, os jovens escreviam nas paredes e no mobiliário mensagens estranhas, à espera que alguém as soubesse ler. Os que se sentiam pior, traziam a agressividade, a violência e o mal-estar das suas casas para as salas de aula e recreios.
Neste pequeno país orgulhoso da sua História, lia-se pouco, escrevia-se mal e, crescia-se de costas voltadas para a ciência. A principal cultura era o futebol. A principal religião, o consumo.
Neste pequeno país, há muito tempo que se dizia uma coisa e se fazia outra. Por isso, as pessoas foram-se habituando a viver com a desfaçatez e a mentira. A verdade, a honra, a honestidade, o bem comum, passaram a ser coisas confusas, valores deslizantes. Parecer tornou-se mais importante do que ser. Ter, mais do que partilhar. O falar escondia mais do que revelava. Uma profusão de imagens mascarava a realidade e embalava as pessoas em sonhos impossíveis.

Neste país, cada vez mais cinzento, havia professores. Como não queriam que os pássaros da tristeza fizessem ninhos nas cabeças dos seus alunos, nunca se calaram. Manifestavam-se, faziam greves, tinham sindicatos. Escreviam nos jornais e revistas, falavam nas rádios e nas televisões, utilizavam a Internet. Denunciavam as injustiças sociais, a corrupção, o clientelismo, o atraso do país, a pobreza, a falta de condições das escolas, o abandono das crianças e jovens, a desresponsabilização das famílias, a falta de apoio às crianças diferentes, a perda de valores de solidariedade, a má gestão da escola pública. Sabiam do que falavam porque todos os dias enfrentavam nas escolas as dificuldades pessoais e familiares dos alunos, os seus problemas, angústias, desejos e expectativas. Queriam uma escola diferente e um país diferente porque sabiam que sem uma boa educação, não havia cidadania nem futuro. E, por isso, nunca se calaram.
Mas neste país cada vez mais cinzento, quem governava não gostava dos professores porque a sua voz era incómoda. Com habilidade, quem tinha mando inventou muitas histórias para os desacreditar, desvalorizar e dividir. Ao longo de muitos meses, políticos e assessores pagos a peso de ouro, trabalharam arduamente, para fazer crer que os professores eram, afinal, o “Lobo Mau” da educação. E mudaram as regras. E mudaram as leis. E alteraram aleatoriamente as regras de concurso, aumentaram o horário de trabalho, impuseram novas funções, subverteram o estatuto da carreira docente e inventaram um bizarro certame de pontos, de carácter acentuadamente burocrático, para dividir os professores em duas categorias: os com título e os sem título. Aos primeiros ficava reservado o desempenho de um novo papel, síntese de “manga-de-alpaca” e “capataz”. Dividir para reinar, um princípio muito antigo!
Neste pequeno país, o todo-poderoso gabinete de propaganda inventou um sinistro ladrão de palavras para complicar o vocabulário dos professores. O seu trabalho era substituir, por artes diabólicas, as palavras coragem, alegria, inconformismo sempre que eram pronunciadas ou escritas, por outras como medo, tristeza, passividade. Mas mesmo assim, os professores não se calaram.
Um novo sistema de avaliação de desempenho foi então desenhado para habitar implacavelmente as escolas: comissões e mais comissões; júris e mais júris; grelhas e mais grelhas; relatórios, observações, fichas, exames, entrevistas, observações, reuniões, votações, decisões, reclamações, recursos… horas e mais horas, estatísticas e mais estatísticas, papéis e mais papéis, discussões e mais discussões, pareceres e mais pareceres. E depois, uma minúscula quota de acesso… só para muito poucos, claro, por muito bons que sejam todos. Adivinha-se o gasto de actividade, a mobilização de recursos e de energias que deveriam estar antes ao serviço dos alunos, da melhoria da qualidade do ensino e da aprendizagem. Poucos confiam na validade deste sistema de avaliação do desempenho. Menos ainda acreditam que por esta via se pode aumentar a motivação dos professores ou melhorar a qualidade do trabalho necessário nas escolas. Muitos sabem que se trata, essencialmente, de impedir bons profissionais de progredir aos últimos escalões da carreira, para que os dinheiros públicos possam continuar a pagar as mordomias de políticos, assessores e administradores. Muitos sabem que o objectivo final é destruir uma cultura profissional democrática, substituindo-a por um sistema hierárquico funcional de transmissão do poder. Conformismo, individualismo, obediência, policiamento, falsidade, desconfiança, sentimento de inferioridade contra dinamismo, cooperação, negociação, solidariedade, partilha, colaboração, trabalho em equipa, autoconfiança. Dois sistemas. Um, normativo e burocrático, baseado em dispositivos panópticos de vigilância e controle. Outro, democrático e colaborativo, baseado em processos de trabalho em equipa e de regulação organizacional. Duas formas radicalmente diferentes de equacionar os problemas da educação e o futuro da sociedade.
Afinal, quem já se esqueceu que a história do Lobo Mau é do tempo em que os animais falavam?

* Este texto foi escrito em 16/11/2007, num contexto muito difícil para a profissão docente.

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