quarta-feira, 28 de outubro de 2015

As TIC na Escola em tempos de mudança*

Comecemos por uma fábula:

“No tempo em que os animais falavam, há milhares de anos atrás, aconteceu que duas rãs tiveram o azar de cair nuns charcos de leite. Uma delas começou a lamentar-se da sua pouca sorte e a pedir auxílio. Vendo que ninguém a ajudava começou a croar e a protestar, morrendo pouco tempo depois com todos os seus lamentos.
A outra rã pedia socorro enquanto tentava nadar. Ao ver que ninguém acudia em seu auxílio, em lugar de continuar a lamentar-se, começou a nadar e a mover as suas patas com tanta fúria, constância e afinco que o leite se converteu em manteiga. Com o leite solidificado, pôde sair tranquilamente.”

Como todas as fábulas, esta também encerra ensinamentos. No mundo complexo e incerto em que nos movemos, a valorização do esforço e do optimismo são uma “pedrada” no charco dos discursos mesquinhos e tecnocráticos em que nos querem enredar. A descoberta de que os lamentos, por si só, não nos ajudam a resolver os problemas e que lutar por causas solidárias nos é mais gratificante, pode fazer a diferença.
As próximas décadas serão de profundas mudanças na vida das sociedades europeias. Os reptos que hoje enfrentamos na educação, na saúde, na segurança social, na economia e na na cultura, tendem a multiplicar-se. Em parte, porque as democracias modernas são de base científica e tecnológica e estas são áreas sujeitas a uma mudança acelerada. Daqui decorrem duas questões essenciais que nos irão acompanhar durante muito tempo: como colocar a ciência e a tecnologia ao serviço da qualidade de vida das pessoas e da justiça social? Qual o papel da escola neste desafio?
Em resultado destas mudanças, a época em que vivemos é muitas vezes designada como “era do conhecimento e da informação”. De facto, a possibilidade de informatizar todos os domínios da vida quotidiana e de digitalizar todos os produtos da criação humana trouxe-nos um mundo novo: a realidade virtual. Neste, o real e a aparência nem sempre se distinguem com clareza. Por vezes, o conhecimento confunde-se com o “nevoeiro informacional”. E os discursos da mentira, quando bem simulados na comunicação social, tornam-se facilmente verdades inquestionáveis. Por incrível que pareça, quem tem o poder, o saber e os meios de dizer o que deve ser a “verdade” muitas vezes é bem sucedido.
É um mundo difícil, bem o sabemos. Como humanizá-lo? O que fazer para diminuir a pobreza, a violência, a ganância, a desigualdade? Qual o caminho para o respeito da biodiversidade do nosso planeta, a “nossa casa comum”? Pensamos que ninguém terá a certeza dos caminhos a seguir, porque podem ser muitos e diversos. Também sabemos que não podemos mudar o princípio. Mas se nos empenharmos, talvez possamos mudar o final.
É aqui que entra a Escola, instituição local e global, por onde devem passar todas as crianças do planeta. É o lugar da humanização da tecnologia através da comunicação pedagógica. É o lugar da prevenção dos comportamentos de risco, incluindo o da dependência dos videojogos. É lugar do questionamento, da análise crítica e da reflexão participada. É o lugar do trabalho de equipa, da aprendizagem ética e estética. É o lugar do esforço, bem certo, mas também o da gratificação pelos caminhos percorridos e obstáculos superados. É ainda, por mais utópico que pareça, um lugar de esperança e de optimismo. É ainda, por mais contra a corrente que seja, um lugar de afirmação dos direitos humanos e sociais.
Às novas dependências do séc. XXI, a Escola tem de contrapor uma cultura colaborativa e pró-activa, baseada no esforço e na obtenção das ferramentas que permitam aprender com autonomia. A ideia de que aos alunos com insucesso ou fracos recursos basta deixá-los abandonados às novas tecnologias em qualquer sala de informática, para compensar as suas dificuldades e ansiedades, apenas acentua as desigualdades. Os recursos informáticos na Escola têm que contribuir para ensinar os alunos a aprender, comunicar e resolver problemas com autonomia e cooperação.
Contudo, para que a Escola possa continuar a desempenhar o seu importante papel educativo são necessárias pessoas e recursos. Pessoas dignificadas e não humilhadas. Preparadas para trabalhar na base de relações de coordenação de esforços e não de subordinação a interesses ou carreiras pessoais. Motivadas para descobrir, imaginar, fazer e inovar.
Foram estes os princípios e os fundamentos que nos levaram a concorrer à medida de financiamento lançada pela Unidade de Missão Computadores, Redes e Internet nas Escolas do Ministério da Educação (CRIE), com o projecto “Inovar na diversidade para melhorar a qualidade”. Com este projecto, a Escola EB 2,3 de Cantanhede beneficia agora de uma rede sem fios de acesso à Internet, de um projector multimédia e de 24 computadores portáteis para trabalho profissional dos professores e aprendizagem dos alunos em sala de aula.
O projecto está a dar os primeiros passos com a instalação das infra-estruturas de rede e sala de apoio ao projecto, formação de professores, preparação de materiais pedagógicos e criação de uma página na Internet, alojada no Web site da Escola, com o endereço
http://www.eb23-cantanhede.rcts.pt/www/inovar2.htm.Estas páginas disponibilizam informação para pais e encarregados de educação, recursos para professores e actividades interactivas para os alunos.
Muito trabalho já foi feito. Muito haverá a fazer. Acreditamos que aquilo a que chamam excelência não é um feito só de alguns, mas tudo o que fazemos com motivação, persistência, prazer e interesse social.


*Este texto foi escrito em 7/12/06, quando era responsável pelo Projeto Inov@r na Escola EB 2,3 de Cantanhede.

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